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terça-feira, 15 de julho de 2008

TERMOS DO FUTEBOL EM PORTUGAL

14 de Março de 2007


Em 1998 publiquei pela Sociedade Brasileira de Língua e Literatura, Rio de Janeiro, BRASIL X PORTUGAL, UM DERBY LINGÜÍSTICO.

Toda a pesquisa foi feita em terras lusitanas, quando fui para lá, oficialmente credenciado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde lecionava, cumprindo os rituais de um semestre sabático. Retornando ao Brasil dei formato de livro à pesquisa de campo. Assim, vou apresentar, agora, nesse espaço cultural alguns comentários sobre a linguagem do futebol português, observada nos estádios, junto ao povo; nos jornais; nas revistas especializadas; nas rádios e nos canais de televisão.

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À ALTURA DOS PERGAMINHOS


Henrique Botequilha, jornalista do jornal O Semanário, de Lisboa, diz que essa expressão é usada "quando uma equipa de grande reputação joga bem" . Assim, o futebol é visto como arte nobre. Trata-se de uma visão elitizante do jogo. A expressão "à altura dos pergaminhos" é de conotação erudita, e está associada à respeitabilidade, à dignidade, à nobreza, à história. Diz-se assim, quando se quer fazer um comentário a uma equipe de grande reputação, que obteve ou deveria obter bom resultado e não se poderia dela esperar outra coisa que não fosse a de jogar um futebol de primeira qualidade. Mas nem todos os ouvintes ou leitores entendem o significado dessa expressão, principalmente se não forem aficionados do futebol. Pudemos comprovar isso, em Portugal, ao realizarmos pequena enquete com algumas pessoas, todas de nível superior, mas sem ligação nenhuma com o futebol. Pedimos que nos dessem os significados de alguns termos ou expressões tiradas dos jornais especializados ou ouvidas em transmissões de rádio, como foi o caso de "à altura dos pergaminhos". Ninguém soube os sentidos dos termos ou expressões. Podemos concluir que estamos diante de uma expressão não entendida por todas as pessoas do mesmo grupo social, caracterizando-se diferentes repertórios lingüísticos dentro do grupo, o que vale dizer, caracterizando o diastraticismo, pois formas diastráticas são diferentes falares num único ambiente sócio-cultural.

BOLA É REDONDA


Na gíria do futebol brasileiro existe a expressão "jogar uma bola redonda", que significa jogar muito bem. Em Portugal a expressão a bola é redonda é usada para uma advertência, na véspera do jogo. As frases ou os ditos populares mostram que a advertência fica sempre bem marcada com breves definições ou afirmações óbvias, como: "O mundo gira"; "Todos os rios correm pro mar"; "Quem planta vento, colhe tempestade" e muitas outras. A bola é redonda tem o significado de advertir, dizendo-se que tudo pode acontecer, pois a bola é redonda... e rola igualmente para os dois times que se confrontam. A bola pode rolar para um lado ou para o outro. Qualquer um dos times pode vencer. "A bola é redonda, sabes?" Corresponde, no Brasil, a: "o vento que venta lá, venta cá" ou ainda, "o risco que corre o pau, corre o machado" , outras, entre várias frases feitas, portadoras do sema advertência.

ACROBÁTICO


"Gesto de um jogador particularmente vistoso; esgalhado com acrobacia", como define Henrique Botequilha. Vistoso deverá ser o gesto e não o jogador. Se for o contrário estaremos diante de uma hipálage. Um jogador vistoso pode não ser acrobático. Assim, pode-se ver no termo acrobático, adjetivo relacionado a gesto, um vocábulo relacionado ao sema CIRCO, onde existem espetáculos tão maravilhosos como os do futebol.

ACUTILÂNCIA


Neologismo formal. Não está dicionarizado. É termo empregado nos comentário das partidas de futebol, em Portugal, por locutores e comentaristas de rádio, televisão e jornais especializados. "Um momento do jogo em que uma equipa está mais forte do que a outra". "Determinação; mais perigo; mais agressividade; a equipa está com mais ênfase em algum setor", segundo Henrique Botequilha, ACUTILÂNCIA refere-se à agressão com o cutelo. Pode ser que esteja aí o sentido deste neologismo, pois ACUTILAR é dar cutiladas em; é golpear. Por sua vez, ACUTILAR é corruptela de ACUTELAR, de cutelo. Se uma equipe está mais agressiva do que a outra, a mais agressiva ataca com muita veemência e fica mais forte do que a outra. Mais um termo do campo semântico da violência.

ADEPTOS


São os torcedores. Adepto, do latim adeptu, aquele que é iniciado nos dogmas da ciência. Quem, após uma iniciação, passa a ser partidário de uma religião. No futebol, a idéia é a mesma, mas não precisa iniciação...

ADJUNTO


É o auxiliar técnico. O futebol foi buscar, talvez, na linguagem acadêmica este termo. Auxiliar, Adjunto, Titular são termos empregados no âmbito do magistério superior.

ALA DIREITA


Expressão política, aproveitada na linguagem relacionada aos comentários de partidas de futebol, em Portugal, pela crítica esportiva, encontrada nos periódicos especializados. Quanto a este procedimento, é oportuno citar parte do artigo Os tempos negros da censura, de Carlos Miranda: "O Baptista Bastos admite que nós, os desportivos, também resistimos um bocado, com o uso de metáforas, que normalíssimas no sector desportivo, ganhavam outro aspecto, quando interpretadas num segundo sentido. E citou exemplos: ‘Como a palavra vermelho estava (e está, queira ou não) associada à Esquerda, muitos de nós (mas nem todos, repito) usávamo-la, habitualmente nos títulos dos relatos de futebol onde participava o Benfica. Assim por exemplo: ‘Os vermelhos esmagam a inércia de..., ou ‘Vermelha é a cor da vitória’ ou ainda: ‘Força, vermelhos!’, com ponto de exclamação e tudo". Outro caso: ‘O dia do Operário’. A censura não leu e não gostou. Tratava-se do Operário Futebol Clube. (A Bola, 22/09/85, p.36).

ALTO-RISCO


"Um Benfica-Porto é um jogo de alto-risco; desafio de grande tensão, possível de bofetadas", nas palavras de H.B. Um jogo de alto-risco é aquele em que pode haver confronto entre as torcidas, dentro dos estádios, resultando sérias conseqüências pelas atitudes agressivas e beligerantes dos espectadores. Está ligado à violência fora e dentro do gramado onde o jogo de futebol se desenrola. Esta expressão está presente também fora da linguagem dos esportes, como pode-se observar nos comentários jornalísticos que focalizam temas como a síndrome do HIV, por exemplo. Em Portugal não se usa o termo AIDS. Lá o termo usado é SIDA, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Parece que a trajetória da expressão ALTO-RISCO foi de fora para dentro da linguagem dos esportes de massa, que a acolheu. Um caso de migração da língua comum para a linguagem do futebol.

ÂNGULO


"Figura formada por dois semiplanos com as mesmas origens, possíveis de serem encontrados nas balizas" (HB). Este termo também é muito usado pelos locutores e comentaristas de futebol no Brasil. "Foi no ângulo", "bem no ângulo", "a bola entrou bem no ângulo" são expressões muito ouvidas. Trata-se de um raro momento lingüístico em que a denotação predomina na linguagem especial do futebol. Contudo, não se pode deixar de ver neste termo um certo saber matemático, escamoteado nas frases acima apresentadas. Observe-se que a forma popular, no Brasil, onde a coruja dorme é muito usada.

APANHA-BOLAS


Substantivo masculino. Mais um termo formado por analitismo. Corresponde ao termo gandula aqui no Brasil. Mais um caso de formação analítica (forma composta de duas ou mais palavras) de termos ligados ao futebol, em Portugal. No Brasil, muitos termos estrangeiros do futebol surgem por sintetismo, quando se adaptam à fonética da língua portuguesa. É o caso de córner = escanteio, em Portugal, pontapé-de-canto; kick-off = saída, em Portugal, pontapé-de-saída; shoot = chute, em Portugal, pontapé-na-bola ou, também, chuto; off-side = impedimento, em Portugal, fora-de-jogo; goal-keeper = goleiro, em Portugal, guarda-meta, guarda-redes; penalty = pênalti, em Portugal, grande-penalidade ou, também, penálti.

ATIRA-SE PARA A PISCINA

Expressão da gíria do futebol português. Diz-se quando o jogador atacante, dentro da área do adversário, lança-se ao chão para simular a falta máxima (o pênalti), como se estivesse a mergulhar na piscina, mesmo sendo barrado legalmente. Metáfora plástica. "...vai passar; atira-se para a piscina..." (RTP, Canal 1, jogo FC Porto 0 X 1 Panathinaikos, 1995).

BALNEÁRIO

É o vestuário. "...tiro-o e ponho-o conforme a disposição, mas, nos jogos, fica no balneário..." (Entrevista de Dominguez, jogador do Sporting e da Seleção Portuguesa, dada a Magalhães dos Santos, em A Bola, 23/09/95, p. 37). José Dominguez é chamado pela crônica esportiva de "Speed" Dominguez, pela sua velocidade em campo. Tanto em Portugal, como no Brasil, esta prática é comum. No Brasil, o jogador do Fluminense (1995) Waldeir era chamado de "The flash", pelo mesmo motivo.

BANCADA


Substantivo feminino. De Banco + ada. É a arquibancada de um estádio de futebol. Bancada e arquibancada significam a mesma coisa, tanto no Brasil como em Portugal. Lá, o uso esportivo escolheu bancada, aqui, escolheu arquibancada, o que não quer dizer que não se possa usar bancada. Rubens Braga, na cônica "A

EQUIPE", de 1952, diz: "Nós todos envergando essas cores sagradas; e no coração, dentro do peito, cada um tinha uma namorada na bancada". Em Portugal também se ouve na voz de muitos locutores de rádio e televisão o termo arquibancada, mas o mais comum é bancada. "...até porque o nervosismo entrou no relvado através das bancadas, onde os adeptos vimaranenses foram mostrando o seu desagrado" (A Bola, 29/10/95, p.14). Vimaranense é adjetivo de dois gêneros. Significa de, ou pertencente, ou relativo, ou natural, ou habitante de Guimarães, cidade do norte de Portugal.

Gostaram? Vamos continuar apresentando os termos do futebol português, comentados sob vários aspectos, mas, basicamente, o lingüístico.



Postado por Professor Feijó às 3:53 PM 0 comentários


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