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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

AS FOGOSAS AVENTURAS DE J. FERREIRA


Estou postando nesse BLOG mais dedicado aos temas dos esportes de massa, basicamente o futebol, porque no BLOG DO PROFESSOR estão sendo postados os textos dedicados à memória do Professor Leodegário A. de Azevedo Filho, falecido no último domingo, dia 30 de janeiro de 2011, no Rio de Janeiro.


Assim, esta RECENSÃO sobre o livro de Maurício Murad, AS FOGOSAS AVENTURAS DE J. FERREIRA, será publicada também, oportunamaente no BLOG DO PROFESSOR .

RECENSÃO

Editora 7 Letras, RJ, 2008.128 páginas.

AS FOGOSAS AVENTURAS DE J. FERREIRA é um romance de Maurício Murad que pretende ser uma fábula, com resquícios literários machadianos e que fala da vida, do amor e dos percalços por que passa um casal da classe média de nossos dias. Uma doença degenerativa, o Mal de Alzheimer, ceifa a vida do personagem central. A narrativa se torna densa. Ceifa a vida, mas não o prazer do texto, como diria Roland Barthes. O Autor mistura suas experiências de vida com um imaginário relacionamento familiar. Nos seus dez capítulos, o livro nos apresenta a progressão de um envolvimento bem articulado do narrador com o personagem central, João Ferreira, tratado referencialmente como J. Ferreira. Cada capítulo recebe um nome, significativamente retirado da história do texto desenvolvido.
O livro apresenta uma DEDICATÓRIA poética, referindo-se a três personagens chaves, onde a poesia já contracena com as duras vicissitudes da vida, prenúncio da morte, suavizada por uma narrativa eminentemente conotativa, escamoteando o triste desfecho da história. Assim, a partir desse primeiro contato com o romance, a metáfora do riso surgirá principalmente no primeiro capítulo, contrastando sempre, por antítese, com a tristeza da morte. E o primeiro capítulo funciona como uma introdução, apresentando o personagem Jota, através do discurso indireto livre e uma fala direta propositadamente dirigida ao leitor, que se excita e por isso se seduz com um discurso que lembra a técnica machadiana, fazendo do leitor seu cúmplice e parceiro.
Os recursos estilísticos utilizados por Maurício Murad são inúmeros e variam da metáfora ao estranhamento. Das sinestesias às hipálages, as mais variadas.
“Olhei, meio porque não estava fazendo nada mesmo, e porque fui induzido a olhar para a frase que insistente serpenteava o tempo e ondulava o espaço”.
Com erudição, trabalha com maestria a grande característica do protagonista Jota, a sua simpatia e o seu riso, para quem, talvez, a vida poderia ser vista como uma grande comédia, rindo com todo o corpo, “menos com a boca”, região do corpo humano em que se especializou profissionalmente, como dentista. E no bloco praticamente da apresentação do personagem central, com uma sutil e bem colocada ironia, percorre inúmeras veredas do conhecimento, como na apresentação do bordão criado por J.Ferreira, o calor de bode. E as citações latinas surgem sem agredir o leitor, como a clássica sentença romana, “asinus ad liram”. De Santeui recolhe a máxima latina "ridendo mores castigat". E continua como crítico do cotidiano a colocar o dedo sobre as mazelas da vida social:
“Crime pior do que assaltar um banco é fundar um banco”.
A leitura da vida se faz pelas palavras e seus significados primeiros.
“Apesar da idade avançada e o jeito lento, tinha um aperto de mão cheio de personalidade e presença, dava pra sentir e eu senti o seu vigor. Fogoso, claro, fogoso! Tudo nele era fogoso. Todas as aventuras dele eram fogosas e fogosas não no sentido comum do termo. Marketing apelativo de um erotismo barato e diário, não, mas fogosas como fogo e fogo como energia, como vida, com alma, desse jeito mesmo como entendiam os gregos e sua mitológica mitologia”.

Serve-se de termos e frases latinas demonstrando erudição sem a pompa discursiva do academicismo, privilegiando a diacronia sobre a sincronia vocabular. E isso ocorre sempre que pretende teorizar.
Maurício Murad trabalha com o intertexto e sabe dosá-lo, sem ser ostensivo, colocando o saber no lugar certo, onde ele deve ser colocado, compondo o enredo, com exatidão, sem pernosticidade.

“Ai, que saudades eu tenho, da aurora de minha vida, da minha infância querida, dos tempos que não voltam mais”.
O poético e a poesia em As fogosas aventuras de J. Ferreira surgem, muitas vezes, pela tentativa de uma teorização crítico-literária (“a poesia não é de quem a faz, mas de quem dela necessita”) e por alternância sintagmática em quiasma (“...e simultaneamente chorou e sorriu, sorriu e chorou”). Essa combinação de artifícios estéticos e lingüísticos imprime ao texto de Maurício Murad um estilo próprio, colocando seu discurso numa posição de significativo destaque na literatura brasileira atual. E com essa técnica narrativa apurada, o romance flui através do discurso indireto livre, o que posiciona o leitor no tempo subjetivo da narrativa. Nesse tempo proposto pelo autor, quase sempre, os diálogos surgem sem possibilidade de um feed-back, mas têm poder de captar a nossa atenção, evitando a dispersão. Diálogo proposto, monólogo exposto.
“Ao retornar já tinha um plano completo para mim, que nunca revelou... para mim. Soube tempos depois, certa feita, num desses encontros em que caminhávamos pelo calçadão, soube por Jota que estava bravo com Analu, porque ela agora deu para inventar que eu estou esquecendo as mínimas coisas e não é verdade, eu lembro de muitas e muitas coisas, mesmo quando antigas”.

A narrativa do romance oscila sempre entre o autor onisciente e seu contraponto, J. Ferreira. É uma conversa com o leitor, para tentar chegar à degeneração física da personagem, praticamente biografada, no último capítulo, mas sempre com atenuantes minimizadoras da terrível realidade, o Mal de Alzheimer. Os textos se aproximam de um relatório amenizados por passagens poéticas (“Assim aspiro, assim espero”).

“O caminho que se avizinhava era tortuoso e imprescritível. Nesse tipo de morada, as ruínas humanas eram vistas a olho nu. O nosso Jota havia chegado a um ponto onde os limites da existência se apresentavam duros e cruéis, acotovelando-se impiedosamente ao redor da pessoa. Eu era sabedor que essas baixas camadas da vida lá estaria pra nos receber”.

Finalmente, a personagem J. Ferreira fala pela narrativa onisciente do autor e uma das atenuantes acima referidas pode se encontrar no próprio título do último capítulo: PRIMEIRO DE ABRIL É UMA BOA DATA. Lá, até as metáforas, indicadoras do predomínio da conotação sobre a denotação são mais fortes, pesadas, mas aliviam a tensão que domina o texto final, impregnado pelo intertexto machadiano, onde o poético dilui o trágico.


ATÉ A PRÓXIMA

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

AINDA O CASO NEYMAR




O ex-jogador Caio, agora comentarista de futebol do SporTV, da Rede Globo, disse ontem e repetiu hoje que preferia que Neymar pagasse multa a que cumprisse suspensão de alguns jogos, pois os torcedores e o Clube é que seriam penalizados. Deixar qualquer um falar sobre importantes assuntos que transcendem o repertório redundante de jovens comentaristas esportivos pode ser fatal para a credibilidade da emissora, mesmo se sabendo que a liberdade de expressão é cláusula pétrea no exercício do jornalismo em todas as áreas. Mas no caso de Neymar, o atual comentarista, Caio, ainda não percebeu, pois não tem formação pedagógica, que a atitude do jogador do Santos Futebol Clube foi de rebeldia contra seu técnico (seu superior na relação empregado-empregador) e de falta de civilidade e companheirismo, elementos imprescindíveis para a formação integral de um adolescente que irá lidar com a fama e já está lidando com a fortuna. Ora, Caio é a favor do pagamento somente de multa, mas, para Neymar isso nada significaria, pois ele ganha muito e qualquer desfalque em seu salário seria insignificante e nada representaria. Não seria traduzido como forma de uma punição. Não estamos defendendo gratuitamente o sistema de crime e castigo, mas se o ex-jogador de futebol e atual comentarista do SporTV tivesse estudado um pouco de Psicologia Educacional, entenderia o que aconteceu com Neymar, identificando sua atitude com o "corredor russo" da obra de Dostoievsk, onde o conceito de trabalho forçado está relacionado com o de prazer lúdico. Se Caio não sabe nada sobre isso, nós não podemos deixar de comentar a posição desse jovem comentarista, pois o rapaz fala bem e é inteligente, com futuro na área jornalística. Quando observamos uma opinião controversa, devemos tentar, pelo menos, mostrar outras veredas para abordarmos o tema gestalticamente. Acontecendo casos assim, no futebol, é dever de qualquer comentarista justificar sua opinião, principalmente quando envolve desdobramentos que estão fora de sua área de conhecimento. Pela lógica do comentarista Caio, bem que o goleiro Bruno do Flamengo poderia pagar uma multa de, talvez, alguns milhões de reais à Justiça e ficar longe da cadeia, para regalo da vista de milhares de torcedores, amantes do bom futebol.

ATÉ A PRÓXIMA

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

FALTA EDUCAÇÃO E SOBRA GRANA, MUITA GRANA

Neymar teve um comportamento, no meio e no fim da sua última atividade de trabalho, não muito diferente daquele que inúmeros adolescentes praticam nas escolas públicas brasileiras que freqüentam. Xingou colegas e dirigentes e bateu boca com todo mundo, num linguajar pobre e chulo. Isso é muito comum nas escolas das periferias das grandes cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, por exemplo. Esses jovens sem nenhuma ou quase nenhuma educação formal, vivendo em comunidades muito deterioradas quanto aos mais comezinhos princípios de respeito ao próximo, órfãos de todos os atributos pertinentes à cidadania, não chegam a absorver quase nada do que lhes é passado pelos abnegados professores dos primeiros níveis da educação de base. Enriquecem rapidamente no futebol, graças a um talento intuitivo no trato da bola, mas continuam sem nenhum sinal de transformação no seu comportamento, mesmo assistindo a umas aulinhas aqui e ali, de vez em quando. Suas famílias dependem totalmente desses meninos e tentam preservar a qualquer custo essa pedra preciosa ainda bruta, sem deixar ninguém burilá-los, pensando que o esmeril irá machucá-los. Em São Paulo os alunos ainda passam de ano automaticamente. Um absurdo. Eles ficam quatro horas na escola e vinte na rua, quase sempre extensão de suas casas. Aprendizagem, que é bom, não pode ocorrer nessas circunstâncias. E por muitos outros motivos, a educação faliu no Brasil. Pode se lembrar, caro leitor, do poeta, pois tudo isso seria uma rima, não seria uma solução!
Dizem que Neymar já tem 18 anos, não é? Então, tem título de eleitor e pode votar para eleger um Presidente da República, não é? Se matar alguém vai para cadeia comum, pois não é mais "di menor", não é? Já pode ter conta em banco e pode casar, ter filhos, separar, pagar pensão, não é? Mas Neymar ganha mais do que seus patrões todos. Nenhum diretor do Santos Futebol Clube ganha o que esse menino com cara e atitude de moleque ganha, não é? Então, senhores jornalistas, comentaristas, formadores de opinião esportiva, não adianta falar mais nada. Não adianta entrevistar nenhum diretor do Santos Futebol Clube para pedir explicações sobre a punição, não do jogador mal-educado, mas sim de seu técnico, que teve um lampejo educativo, propondo a sua suspensão por tempo indeterminado, pois qualquer multa em seu salário seria ridículo. Não representaria nada. O infrator ganha muito, muita grana, mesmo! O Clube investiu muito dinheiro nesse negócio chamado Neymar, que virou coisa, papel-moeda e está virando celebridade entre a meninada, entre seus equivalentes e seus amiguinhos mais chegados. Tomara que não atinja o topo do Podium alcançado pelo seu ex-colega do Flamengo...



ATÉ A PRÓXIMA

terça-feira, 27 de julho de 2010

T R I V E L A

O termo TRIVELA pertence à linguagem especial do futebol. É de uso corrente entre os narradores das partidas transmitidas tanto pelo rádio como pela televisão. Os articulistas de jornais e revistas também o usam. Portanto, esse termo pertence ao vocabulário ativo da linguagem futebolística, mas não é produtivo, isto é, com ele não se formam termos cognatos. São comuns expressões como: “Deu de trivela”; “Foi de trivela”; “Jogou ou lançou a bola de trivela”. Sempre a expressão DE TRIVELA é apresentada como um adjunto adverbial de modo.
TRIVELA é o chute dado com o lado externo do pé, e todos dizem que são os três dedos que tocam a bola, dando um incrível efeito, fazendo-a girar numa trajetória semelhante a um arco de círculo. Mas como se sabe que o chute foi dado com os três últimos dedos externos do pé, se a chuteira os encobre totalmente? Tentaremos responder, buscando as origens desse termo. Não temos conhecimento, hoje, de nenhuma tentativa de explicação. Como sempre fui seduzido pela questão das origens, pois tudo que está escondido no passado e faz parte da vida do homem, me encanta e desperta curiosidade, procurei tentar descobrir o que deu motivação a esse termo do futebol, mesmo sabendo que, em matéria de linguagem, a arbitrariedade do signo lingüístico existe e nos foi ensinado magnificamente pelo mestre franco-suíço, Ferdinand Saussure.
A decomposição mórfica desse vocábulo parece ser TRI + VELA. Se essa for a formação, isto é, se esses forem os elementos constituintes do vocábulo TRIVELA, cada um deles deve ter um significado, pois parece que são dois monemas, de acordo com a constituição mórfica desse termo. TRI corresponde ao significado três. E VELA? Bem, aí é que entra a observação e a experiência do pesquisador. Tudo leva a crer que VELA é o termo que irá significar, por metáfora, cada um dos dedos do pé do atleta, pois como os dedos das mãos, os dedos dos pés têm a forma de velas de aniversário, pequenas, com a unha no lugar da chama viva. Com um pouco de imaginação pode-se quebrar a arbitrariedade do signo lingüístico, tornando o significante motivado, dando origem a essa interpretação. São três velas os três dedos externos do pé do atleta, que com eles chuta a bola. E mais, o vocábulo surge com expressividade fônica: /TRI/-/VE/-/LA/. E se imaginarmos que o chute fosse dado com os quatro dedos, pois tudo está encoberto pela chuteira? Aí, então, talvez, pudessem surgir os termos TETRAVELA ou QUADRIVELA, o que, convenhamos, não seria eufônico, nem seria compatível com os mistérios do futebol e de sua magnífica linguagem figurada, pois TETRA é vocábulo dissílabo, mais longo e menos popular do que TRI. QUADRI está no mesmo caso da quantidade silábica e não tem nenhuma expressividade significativa. O povão não traduziria estas formas... Está aí, pois, registrada, mais uma humilde colaboração na área da interminável investigação linguística.

ATÉ A PRÓXIMA

sexta-feira, 2 de julho de 2010

D E S E S T A B I L I Z A Ç Ã O

Quem é pobre não se desequilibra, haja vista o sofrido povo nordestino que passa por secas e enxurradas, por descasos das autoridades públicas e por ataques de bandidos aos sofridos flagelados de todo tipo. Quem é pobre não se desequilibra nem se desespera. O pobre está sempre se referindo a um outro sistema simbólico para tentar explicar suas vicissitudes, pedindo a Deus e ao “Padim Padi Ciço” uma interferência a fim de que não o faça sofrer mais e botar sua vida nos trilhos. Quem é pobre se resigna com as coisas adversas e não se desespera, pelo contrário, não ameaça ninguém nem dá ponta-pé nos outros, nem murro nos postes ou no chão, de cabeça baixa. Quem é pobre acha até que tudo é o desejo do Onipotente, o responsável pela privação e provação, quando perde casa, gado, plantação e até seus entes queridos, mas não se desequilibra. Quem é pobre tenta encontrar um caminho mais curto, mas difícil, para sair da pobreza, mesmo não tendo quase nenhuma opção para isso. Então, o pobre, em sua maioria absoluta, vai tentar ser jogador de futebol. Aí, com muita sorte e também esforço ele vence, sai da caatinga, da favela (agora chamada de comunidade), das cidadezinhas tristes e sem graça nenhuma do interior do Brasil e vai, às vezes, sem passar pelos grandes centros das capitais, diretamente para o exterior. Vai para a Europa. Vai para o Real Madrid, para o Barcelona, para o Milan, para o Benfica, para o Manchester United, para o Arsenal, para o Paris de Saint-Germain, para o fim do mundo, para as Arábias, para os Emirados e Sultanatos do Islã. Então, esses meninos jogadores de futebol se tornam ricos e só voltam ao Brasil, para a Granja Comary, em Teresópolis, para servirem à Seleção Brasileira. Tornam-se canarinhos ricos, verde de dólar e amarelo de camisa cheia de propaganda. Dizem que esses jogadores, oriundos da pobreza, se transformam e passam a ter um sistema emocional compatível com sua nova posição de craque, de estrela pop, de “enfant gâté” de treinadores e de cartolas do futebol nacional e internacional. Mas onde está o equilíbrio emocional? Não existe, porque ao se tornarem ricos, com sua vida estabilizada, seu parentes próximos todos com a vida ajeitadinha, tudo cem por cento organizado e resolvido materialmente, perdem o equilíbrio emocional que devem manter dentro de uma competição, porque já têm muito e pensam que podem fazer o que lhes vem à cabeça, do charminho aos pisões desleais e criminosos, prejudicando toda equipe. De mais a mais pensam que se fizerem alguma besteira nada têm a perder. Estão pouco ligando para essa de autocontrole. Se conseguiram vencer a miséria, a fome e a morte súbita no agreste interiorano ou no fundo do nordeste brasileiro, pensam ser jogadores de futebol que desequilibram tudo e todos, não se importando com as dificuldades de um jogo decisivo, por exemplo. Admitem para si mesmos que a vitória chegará a qualquer momento, mas não estão preparados para o pior. Chegando esse pior, na forma de um fantasma ou na forma de um acidente em campo, se descontrolam e assim se comportam porque são ricos, ganham muito, mas muito mesmo, e quem quiser que prepare justificativas de toda sorte para explicar as suas inconsequências. O pobre não se desequilibra. Os ricaços de nossa Seleção Brasileira de Futebol, sim. Com isso tudo ficamos muito tristes, mas o Brasil pode até ter um lucrozinho (e que sirva de lição, mesmo), porque, tenho certeza, muitas outras crônicas vão aparecer centradas na soberba de alguns de nossos jogadores, para corrigir de vez todos esses erros desconcertantes na formação de um eleco que não reside mais aqui, nem nas grandes cidades, nem na caatinga e agreste nordestinos e, muito menos, nas favelas e alagados dos pauls lamacentos, há muito tempo.

ATÉ A PRÓXIMA

sexta-feira, 26 de março de 2010

BLÁ-BLÁ-BLÁ FUTEBOLÍSTICO







Os comentaristas dos jogos de futebol pela televisão são chamados a intervir, pelos narradores e falam do jogo como se falassem para os técnicos das equipes que estão disputando a partida. Para quê? Que efeito objetivo tem esses comentários, se, só quem ouve essas opiniões, às vezes muito subjetivas, são os telespectadores? E, é bom dizer, que muitos de nós, míseros desconhecedores dessas estratégias, para garantirem vitórias extraordinária, não estamos interessados em ouvir esse blá-blá-blá chatíssimo. O jogo que é bom, mesmo, deixa de ser narrado. Mas no caso da televisão, alguém pode dizer que se já estamos vendo tudo, para que narrar o jogo todo? Mas não é assim, não! Sobre isso também falei em livros, artigos e palestras. Se esses comentários fossem feitos, como antigamente, durante o intervalo das partidas, seria bem melhor. Até técnicos menos qualificados poderiam ouvi-los.... Mas não posso deixar de perguntar. Será que esses comentários, como são feitos, dentro da partida em andamento, são assim idealizados para dar emprego a jornalistas esportivos, fora das redações dos jornais? Aliás, na briga por audiência, este meio frio que é a televisão é muito mais competitivo do que aquele gutembértico meio quente de comunicação, o rádio. Esses comentaristas falam demais. Leem estatísticas de eventos passados, todos elaborados pela produção e muitas vezes chamam a esses dados pesquisados nos bastidores da história do futebol de “scout”. Sobre esse indigesto termo inglês podem ler o que escrevi em meu último livro, FUTEBOL FALADO e sua dramática linguagem figurada (Ver a capa em cima). Dizemos estas coisas, não por temos ojeriza aos estrangeirismos, pois possuímos a consciência lingüística de que são inofensivos ao sistema da língua portuguesa, pois surgem de relacionamentos culturais, entre povos, naturalmente, e esses empréstimos ou estrangeirismos, são, ainda, de natureza léxica e não morfológica e em nada podem mudar a língua portuguesa, que permanecerá a mesma. Mas os chamo de indigesto porque são chatíssimos e pedantes. O povão não sabe o que é isso. Será que só o povão? Mas, voltando a esses arroubos de modice. Muitos comentaristas se expressam rebuscadamente por uma imposição da sofisticação de suas casas de trabalho, uma questão locativa, isto é, por atuarem em emissoras requintadas, colocadas no topo de distinta estrutura, e por estarem à frente das demais, no “rank” técnico e estético. Quando a rádio ou a emissora de TV é mais popular, seus comentaristas de futebol mudam o linguajar. Bem isso é válido e aí está o meu “mandiocal” ou o “corpus” das pesquisas linguísticas que venho realizando.

ATÉ BREVE

quinta-feira, 11 de março de 2010

CHUPANDO O DEDO



Há uma pitadinha de culpa, por parte dos jornalistas esportivos, quando assinalam em manchetes que um time ou um jogador ou até muitos jogadores humilham (sic) os adversários em campo, insistindo em termos como “massacre” e seu campo semâtico, relacionado a GUERRA, como já falara, na França, Robert Galisson, na década de 70, para citar apenas um autor estrangeiro, especializado nas linguagens especiais dos esportes de massa. Mas que culpa é essa a que me referi na primeira linha desta reflexão crítica? Trata-se da expansão da violência nos campos de futebol, pois esses comentaristas esportivos corroboram, sim, com a violência, pois disseminam a ideia de que as jogadas espetaculares são ofensas aos adversários. Se esse é o pensamento de alguns repórteres, comentaristas, locutores esportivos, homens até com razoável estudo e grau de instrução superior, imaginem o que pode acontecer na cabeça adolescente de meninos deslumbrados pela fama, que escutam isso e que estão nascendo, agora, para as glórias do futebol! Na goleada do Santos (10 a 0), ontem (10/03/10), na Vila Belmiro, contra o trava-língua Naviraiense, do Mato Grosso do Sul, pela Copa do Brasil, houve, após o jogo, algumas declarações desses meninos que ainda chupam o dedo nas comemorações de seus gols. Robinho disse: “Aproveitamos bem as oportunidades, que foram muitas. E não tem que ter pena, pois se o Santos estivesse sendo goleado, o adversário também não teria. E a melhor maneira de respeitar o adversário, no futebol, é não parar de buscar o gol". O meia Marquinhos, autor do sexto gol do Santos, confirmou o discurso de Robinho. "Isso que estamos demonstrando é futebol show. Pedalando na hora que pode e fazendo gols. A humildade é o caminho para o sucesso e precisamos manter isso", disse. Até que as duas declarações dos garotos são razoáveis. Mas uma manchete, desse mesmo jogo, que aparece no Portal Terra, é preocupante. Ei-la: “Neymar humilha três e o goleiro em massacre santista”. Isso é um Fait-divers com repercussão linguística e sociológica. Vejamos. HUMILHAR significa tornar desacreditado, mal afamado, rebaixar. Convenhamos que não são significados nada elogiáveis ou gentis... MASSACRE vem do francês “massacre”, que significa ato de causar a morte de muitas pessoas ou animais. Tanto é assim que puristas da língua portuguesa (não nos incluímos neste caso) sugerem que em seu lugar se use trucidar, ou chacinar, ou humilhar, evitando, assim, o galicismo. Pelo exposto, não concordamos com essa descrição do jogo, o futebol falado, mesmo metafórica, por entendermos que é prejudicial à formação integral desses adolescentes e uma deformação impressionista da realidade esportiva, e que não condiz com a ética esportiva.





ATÉ A PRÓXIMA